O aumento da concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera tem acelerado o processo
de aquecimento global e este por sua vez interfere no sistema climático.
As emissões são em grande parte resultado da queima de combustíveis - principalmente nos
meios de transporte, na geração de energia, nos processos industrias e na atividade
agrícola.
As evidências das mudanças climáticas já são sentidas no nosso cotidiano, com situações
extremas de chuvas, secas e ondas de calor, que afetam e ameaçam as nossas e todas as
outras formas de vida do planeta.
Mudar nossas atitudes e ações na busca da redução e controle das emissões são o maior
desafio deste século. Esta responsabilidade é comum porém diferenciada, vale tanto para o
cidadão quanto para os empresários, organizações de modo geral e governos de todos os
países.
Uma empresa ao informar as emissões de CO2 resultantes da produção e distribuição do seu
produto está adotando uma boa prática ambiental, além de incentivar o consumo consciente
e estimular a concorrência a fazer o mesmo.
Ao se engajar neste propósito a empresa está assumindo uma postura de responsabilidade
socioambiental e de transparência perante ao consumidor.
A isto soma-se uma grande estratégia de marketing e um importante diferencial de
mercado.
Conceito A proposta é informar ao consumidor com quanto um produto contribui nas emissões de
CO2. Essa contribuição é referente as emissões liberadas na atmosfera durante
o seu processo de fabricação/produção e na sua logística de transporte/distribuição até o
ponto de venda. Está informação - expressa em gramas de CO2 - estará afixada na
embalagem do produto através de um selo, conforme modelo apresentado.
Procedimento
Para se chegar ao valor em gramas de CO2 que será afixado no produto, deve-se seguir
algumas etapas de trabalho. Na primeira, serão definidos os produtos que receberão o
selo. Em seguida serão realizadas auditorias para identificar as emissões de CO2
relativas ao processo de produção e distribuição do produto até o ponto de venda.
A partir destes dados serão calculadas as emissões de cada produto. Em um segundo
momento poderão ser avaliadas as alternativas de redução das emissões.
Um selo pode salvar o clima da Terra?
Alguns produtos já exibem no rótulo quanto poluíram. Como isso pode combater o
aquecimento global
O irlandês Terry Leahy, de 52 anos, presidente da maior rede de supermercados da
Inglaterra, a Tesco, afirma não ter grandes idéias dentro de seu escritório. As
paredes cor de gelo, segundo ele, não deixam o pensamento fluir com liberdade.
"Preciso respirar ar fresco e ter contato com as pessoas", diz. Nos dias mais frios,
exercita a mente entre os corredores de alguma loja de sua própria rede e tenta se
passar por um cliente comum. Nos dias mais quentes, prefere ir a pé ao trabalho.
Ele sai de sua casa, localizada no vilarejo inglês de Cuffley, e anda 2.059 passos
(ele afirma ter contado) até o escritório. Em uma dessas caminhadas, em julho de 1998,
o executivo teve a idéia de reduzir as emissões de gás carbônico de sua empresa.
Queria diminuir a quantidade do poluente que é o maior responsável pelo aquecimento
global. Deu início a um minucioso trabalho que envolve centenas de fornecedores.
A idéia é transformar a Tesco em um exemplo de produtividade sem agredir o meio
ambiente. Para isso, trocou as máquinas que consumiam muita energia. Substituiu
a frota de caminhões a diesel por veículos a gás. Neste ano, Leahy adotou uma
tática mais ousada: resolveu colocar no rótulo de seus produtos quanto eles
poluem o ambiente. A quantidade de carbono liberada para a atmosfera em sua
fabricação estará estampada na embalagem de cada um de seus 70 mil produtos.
A notícia valorizou as ações da rede de supermercados em 30% e ajudou a transformar
a Tesco em uma das marcas mais sólidas do planeta.
"Um copo de suco de laranja gasta até dois copos de petróleo para chegar ao mercado"
Incluir a emissão de carbono no rótulo dos alimentos ganhou projeção mundial por causa
da atual crise de mudanças climáticas. A Terra está esquentando devido ao acúmulo de
gases que aprisionam o calor do Sol na atmosfera. O principal deles é o gás carbônico,
emitido pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento. Segundo um painel de
cientistas da ONU, esse aquecimento pode provocar secas, inundações e aumento do nível
do mar. Para o economista britânico Nicholas Stern, a economia global vai encolher 20%
até o fim do século.
Contar as moléculas dos poluentes é o primeiro critério transparente em meio a uma
profusão de selos ambientais. O consumidor ainda não sabe como privilegiar as empresas
que adotam boas práticas ambientais. Afinal, quase todas trazem na embalagem alguma
informação de proteção ao meio ambiente. O que é melhor: ser biodegradável ou usar
embalagens recicláveis? É difícil avaliar. "Por isso, a informação do carbono no rótulo
será uma ferramenta para diferenciar o marketing supostamente oportunista de ações
engajadas", diz Ernesto Cavasin, gerente de sustentabilidade da consultoria
PriceWaterhouseCoopers. "É provável que, em pouco tempo, o 'quanto polui' passe a ser
um critério na escolha dos produtos alimentícios, ao lado do preço e das informações
nutricionais." Ele afirma que a informação também alcançará os demais setores da
economia, como serviços de entrega de flores e brinquedos. O selo chega primeiro
aos alimentos porque a cadeia produtiva é mais curta. É mais fácil calcular quanto
emite 1 quilo de arroz que descobrir todas as emissões que envolvem um automóvel.
A novidade já está mudando o jeito de consumir dos britânicos. Uma pesquisa encomendada
pela União Européia mostra que parte dos londrinos está inconformada com algumas
distorções do processo produtivo. O carbono na embalagem revelou que um copo de suco de
laranja gasta até dois copos de petróleo para chegar ao supermercado. E que um pacote
de salgadinho polui até três vezes mais que 1 quilo de arroz. Será que optar pelos
alimentos menos poluentes poderá salvar o mundo das mudanças climáticas?
A empresa londrina Walkers, fabricante da batata inglesa Walkers Crisps, afirma que
sim. Em abril do ano passado, ela se tornou a primeira a incluir o custo ambiental
na embalagem de seu produto: são 75 gramas de carbono por pacotinho. No processo de
auditar suas emissões de carbono, a empresa identificou e reduziu desperdícios.
Economizou 33% de energia e 45% de água.
Assim, tornou-se ainda mais competitiva. "É uma pena que não existam outras empresas
para comparar as emissões com as nossas", diz Neil Campbell, presidente da marca. Há
seis anos, a companhia fez uma parceria com a Carbon Trust, criada pelo governo
britânico para promover negócios sustentáveis. A meta da Walkers é reduzir a poluição
por pacote para 65 gramas até 2010. É mais que a meta de redução recomendada pelos
cientistas da ONU.
A declaração do carbono no rótulo ganhou dimensão na Inglaterra. A rede de farmácia
britânica Boots colocou a informação em produtos de higiene de marca própria. A nova
embalagem começará a circular em julho. A rede de varejo britânica Marks & Spencer
preferiu colocar o símbolo de um avião em cerca de 150 alimentos que viajam até
chegar aos supermercados. A aviação é o transporte que mais emite gases do efeito
estufa. O próximo passo é contar a quantidade de carbono emitida.
Por que o consumidor deveria saber quanto carbono os produtos alimentícios emitem?
A decisão de compra nas lojas influencia uma cadeia de indústrias e uma de transportes
que, juntas, emitem a maior parte do carbono para a atmosfera. Pelo menos 77% das
emissões do mundo são decididas em nosso consumo do dia-a-dia. Esse dado considera
as emissões da indústria e da agricultura. Também conta metade da poluição gerada
pelos transportes, que levam nossas cargas, e dois terços da geração de eletricidade,
que abastece a indústria e os serviços (confira no quadro). "O consumidor pensa que
só destrói o planeta quando acende a luz ou anda de carro", diz Hélio Mattar, diretor
do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente. "Ele esquece as compras."
"O selo do carbono é um modo de explicar por que um produto que poluiu pouco é mais
caro que outro"
A experiência em Londres mostra que a informação na embalagem pode fazer diferença.
A idéia dos empresários é levar até o consumidor a decisão de preservar o planeta.
"Só o cliente tem condições de favorecer as companhias verdes", diz Osvaldo Martins,
diretor da consultoria Iniciativa Verde. "A decisão de compra pode excluir as
empresas não-sustentáveis." O consumo consciente pode deflagrar, ainda, um efeito
em cadeia. Uma empresa européia de cereais que compre milho no Brasil terá de contar
quanto foi emitido aqui na produção do grão. Isso estimula pequenos produtores a
reduzir seu desperdício. Estima-se que 75% das emissões em todo o processo produtivo
dos alimentos estejam concentradas nos fornecedores menores.
Na União Européia, a informação no rótulo é importante para justificar o preço que as
empresas s do continente pagarão ao reduzir suas emissões. No ano passado, o bloco
europeu anunciou que vai reduzir, unilateralmente, suas emissões de carbono em até
60% em relação aos níveis de 1990. Para isso, terá de adotar medidas caras, o que
colocaria as empresas européias em situação de desvantagem na competição com as de
outros países. "O selo do carbono é um modo de explicar por que um produto que poluiu
pouco é mais caro que outro", diz Cavasin. Segundo ele, a rotulagem estimularia
empresas que fornecem matéria-prima para a Europa a reduzir suas emissões também.
O carbono no rótulo pode ser uma decisão importante. Mas não deve ser a única. O
consumidor pode demorar algum tempo para se dar conta de seu novo papel. Enquanto
isso, empresas européias podem migrar para países que não imponham metas de redução.
Para evitar isso, o Parlamento Europeu prevê um tipo de barreira de mercado. O bloco
está discutindo como criar limites para a importação de produtos que emitem mais
carbono que o estabelecido no próprio continente. O assunto é polêmico. O chefe
do setor comercial do bloco, Peter Mandelson, afirma que uma decisão como essa vai
contra as regras internacionais de comércio.
O economista Stern diz que é a única solução. Na opinião dele, algo precisa ser feito
até que o selo de carbono surta o efeito esperado.
O único jeito, por enquanto, é facilitar a vida das empresas que têm práticas
sustentáveis. A Europa deve aumentar a oferta de crédito e anular as tarifas
alfandegárias de produtos que respeitem o meio ambiente. Da mesma forma, as mais
poluentes serão sobretaxadas. Isso já ocorre na cidade de Quebec, no Canadá, onde
as refinarias de petróleo são obrigadas a pagar uma taxa extra por litro de combustível
vendido. O dinheiro arrecadado financia projetos que compensam a emissão de carbono,
como o plantio de florestas (ao crescer, as árvores absorvem carbono).
Calcular o carbono de um produto está longe de ser uma tarefa fácil. O resultado da
conta depende do método adotado. Alguns cálculos consideram as emissões com a
construção da fábrica e a locomoção dos funcionários até o trabalho. Outros incluem
no processo o que será gasto com refrigeração e iluminação no ponto-de-venda.
Há ainda os que descontam do total a poluição evitada com a reciclagem das embalagens.
A tendência é que no futuro se adote um padrão de medição global. "Será a única
forma de comparar o carbono de produtos da mesma categoria", diz André Carvalho,
pesquisador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas.
No Brasil, a Natura deverá começar a rotular o carbono em seus produtos até o fim
deste ano. "Por enquanto, o rótulo dos produtos contém informações como a certificação
de origem e o porcentual de material reciclado", disse Daniel Gonzaga, diretor de
pesquisa e desenvolvimento da empresa.
"Segundo uma pesquisa, mais de 60% dos brasileiros querem consumir de modo responsável"
Apesar da adesão pioneira de algumas empresas na Europa e no Brasil, ainda não está
claro se a prática vai se popularizar. Uma pesquisa feita pela Universidade do Porto,
em Portugal, afirma que os consumidores de lá ignoram qualquer informação nos rótulos
dos alimentos. "Aqui deve acontecer o mesmo. Esse tipo de apelo é mais eficiente em
sociedades ricas e informadas", diz Martins. Afinal, é preciso consciência para decidir
e dinheiro para arcar com o custo extra da redução de carbono. A própria rede de farmácia
britânica Boots, que adotou o rótulo em seus xampus, ainda não conseguiu o efeito
esperado. Em uma pesquisa com os clientes, descobriu que a principal pergunta após
a análise do rótulo é algo como: "E daí?". O empresário Paulo Savino, um dos sócios
da Ecobras, indústria fluminense de alimentos s orgânicos à base de soja, diz que
não conseguiu aumentar as vendas como esperava após estampar o selo "livre de carbono"
em seu produto. A certificação é dada à empresa que compensa suas emissões de carbono.
Algo parecido com a contagem do carbono aconteceu no fim dos anos 80 na Alemanha.
A idéia era criar um sistema de rotulagem chamado Ponto Verde. Apenas as empresas
com boas práticas ambientais recebiam permissão de estampar isso no rótulo.
O efeito foi brutal. As empresas que mantiveram os altos índices de emissões
começaram a ser banidas do mercado - pelo consumidor. Mas, por falta de
transparência da empresa certificadora, e prováveis acordos com gigantes do
setor alimentício, o selo perdeu credibilidade e caiu no esquecimento.
Há motivos, porém, para acreditar que o rótulo de carbono pode pegar no Brasil.
Segundo uma pesquisa do Ibope, os brasileiros estão entre os cidadãos do mundo
mais sensibilizados com as causas do aquecimento global. Mais de 60% dos entrevistados
disseram ter desejo de consumir de maneira responsável. O carbono no rótulo pode ter o
mesmo efeito do selo Procel, que indica o consumo de energia dos eletrodomésticos.
Hoje, virou um critério na decisão de compra. Além disso, se essa tendência pegar
no mundo, o Brasil se beneficiará. O país tem uma produção de energia limpa - 75%
vem de hidrelétricas - e parte do transporte é feita com veículos a álcool ou biodiesel.
Se a rotulagem de carbono for importante no comércio internacional, nossos produtos
estarão em vantagem.